Um recente quadro do jornal pernambucano NE1 aponta um tema que vem sendo debatido por especialistas e pais preocupados: a geração de adolescentes ligados às redes.
Cena cada vez mais comum: adolescentes juntos fisicamente, mas conectados cada um à sua própria tela
A OMS (Organização Mundial da Saúde) afirma que a adolescência está situada entre os 10 aos 19 anos. Esse período é caracterizado pela reformulação do corpo e dos órgãos, que continuam se modificando até os 30 anos. A última parte a ser adaptada é chamada de Córtex Pré-Frontal que, segundo o site do Centro de Pesquisas em Doenças Inflamatórias, é uma das áreas mais sofisticadas do nosso cérebro, responsável pela tomada de decisões e controle de impulsos. Esse órgão só atinge sua maturidade por volta dos 25 anos, e durante esse período de adaptação a mente do adolescente pode ser considerada vulnerável.
A troca de estímulos entre mentes em formação: um dos símbolos da fase de reorganização cerebral da adolescência
A pediatra e especialista em neurologia do desenvolvimento Sophie Eickmann afirma que durante a adolescência o indivíduo passa pela chamada “Poda Neuronal”, um processo em que o cérebro descarta neurônios e conexões que não estão sendo utilizadas e fortalece as mais usadas. Nesse período, o jovem passa por uma introspecção, em que começa a questionar: quem eu sou? A que lugar pertenço?
Durante essa fase, as relações sociais começam a se aprofundar. Entretanto, para o psicopedagogo e autor do livro “Geração do Quarto”, Hugo Monteiro, é a partir desse momento que os problemas se iniciam. O meio urbano atual, para muitos, é percebido como perigoso e violento — um dos fatores que motiva os jovens a entrarem em seus quartos e, mesmo sem perceber, isolarem-se. As relações que não puderam manter no mundo exterior são transferidas para o mundo virtual: um lugar onde personalidades podem ser moldadas, aparências transfiguradas e vidas refeitas — muito mais perigoso que o mundo externo, por ser um lugar sem regulação.
A comunicação entre pessoas se transforma: fios de contato que antes passavam pelo olhar e pela fala hoje disputam espaço com a tela
De acordo com dados do Centro de Estudos sobre Tecnologia da Informação e Comunicação, 93% das crianças de 9 a 16 anos usam internet, e 19% delas já sofreram violência sexual facilitada pelo uso da rede — cerca de 3 milhões de crianças e adolescentes. Esses números escancaram a fragilidade da segurança nas redes, fragilidade que alimenta uma geração adoecida por comportamentos autodestrutivos e transtornos mentais.
Vale ressaltar que, segundo a comparação feita pela pediatra Juliana Coutinho, as redes sociais e os jogos funcionam como drogas: são dopamina barata, obtida por meio de vídeos ou pequenas conquistas virtuais que impulsionam os jovens a permanecerem em frente às telas por mais tempo.
Jogos em grupo, cada um em sua própria tela: a dopamina rápida que mantém os jovens presos ao celular
Essa mesma felicidade momentânea, obtida sem esforço, é o que causará problemas sociais na vida adulta. Socializar é aprender a ter paciência, a lidar com frustrações e a resolver conflitos — no mundo virtual, essa vivência é quase ausente.
A oportunidade de conhecer o mundo fora das redes é indispensável para qualquer adolescente: é onde se aprende a apreciar conversas, risadas, olhares e, até mesmo, a descobrir quem somos. A dopamina de assistir um vídeo curto não se compara à felicidade de cumprir deveres, alcançar metas e realizar sonhos. Experimenta!
Pesquisadora: Kezia Talita · Agosto de 2026
Fonte: G1 Pernambuco · NE1